BESS colocalizado abre nova fase para armazenamento no Brasil
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A autorização do primeiro Sistema de Armazenamento de Energia colocalizado a uma usina de geração marca uma nova etapa para o desenvolvimento de baterias em grande escala no setor elétrico brasileiro.
O projeto será instalado junto à UFV Sol de Brotas 7, da Statkraft, na Bahia, e terá 1,25 MW de potência instalada e 5,016 MWh de capacidade nominal de armazenamento. A iniciativa foi autorizada pela Aneel e representa o primeiro caso formalizado no país de um sistema de baterias diretamente associado a uma central de geração.
A principal diferença desse modelo está na integração física e operacional entre geração e armazenamento. Em vez de funcionar como um ativo completamente independente, o BESS compartilha com a usina parte da infraestrutura necessária para conexão ao sistema
elétrico.
Na prática, essa configuração abre espaço para aproveitar melhor ativos existentes, armazenar energia em determinados momentos e entregá-la posteriormente ao sistema quando houver maior necessidade ou melhores condições de escoamento.
A autorização também ganha importância em um momento de rápida expansão das fontes eólica e solar, aumento do curtailment e preparação do país para os primeiros leilões de reserva de capacidade voltados especificamente a sistemas de armazenamento.
Sol de Brotas 7 recebe projeto pioneiro
O sistema será instalado na UFV Sol de Brotas 7, no município de Uibaí, na Bahia.
O BESS utilizará baterias de íon-lítio e terá 5.016 kWh de capacidade nominal, com 1.250 kW de potência instalada. O sistema está associado à operação da usina fotovoltaica e poderá armazenar energia para posterior entrega à rede.
A Statkraft já havia incluído o armazenamento dentro da concepção do projeto solar.
Documentos financeiros públicos da companhia indicavam a previsão de um projeto piloto de bateria na região com objetivo de capturar energia excedente e realizar a injeção posteriormente, quando houvesse maior disponibilidade de escoamento.
Essa característica torna o projeto especialmente relevante para um sistema que enfrenta crescimento acelerado de geração renovável em determinadas regiões e limitações de transmissão em horários específicos.
O que significa um BESS colocalizado
Um sistema colocalizado é diferente de um projeto de armazenamento independente, conhecido como standalone.
No modelo standalone, a bateria é desenvolvida como um ativo próprio e pode se conectar diretamente à rede sem estar necessariamente associada a uma usina de geração.
No modelo colocalizado, o armazenamento está vinculado a um empreendimento gerador.
A própria Aneel define essa configuração como aquela em que o SAE está instalado junto à central de geração e compartilha sua infraestrutura de conexão.
Essa estrutura pode gerar vantagens relevantes.
Parte dos equipamentos, instalações de transmissão, sistemas de medição e ponto de conexão pode ser utilizada de maneira conjunta, reduzindo a necessidade de duplicação de infraestrutura.
Além disso, o armazenamento cria uma nova possibilidade operacional para a energia produzida pela usina.
Em vez de toda a geração precisar ser entregue imediatamente, parte pode ser armazenada e deslocada no tempo.
Compartilhamento de conexão ganha valor estratégico
Um dos principais ativos de um novo projeto de geração atualmente é seu acesso ao sistema elétrico.
Em regiões com grande concentração de empreendimentos renováveis, obter capacidade de conexão pode se tornar tão importante quanto possuir recurso solar ou eólico de qualidade.
Nesse cenário, utilizar uma conexão existente de forma mais eficiente ganha enorme valor.
O sistema da Sol de Brotas 7 poderá aproveitar a infraestrutura associada ao empreendimento para combinar geração e armazenamento.
Esse conceito tende a ganhar importância à medida que desenvolvedores buscam maximizar a utilização dos pontos de conexão já disponíveis.
Na ePowerBay, o Mapa de TUSTg/c e Margem é particularmente aderente a esse tipo de análise, porque permite avaliar condições relacionadas à localização e à margem disponível para sistemas de armazenamento.

A Fila de Acesso à Rede (ONS) complementa essa leitura ao mostrar onde existe maior pressão de novos projetos sobre a infraestrutura disponível.

Projeto está inserido em arranjo híbrido maior
A Sol de Brotas 7 não deve ser analisada isoladamente.
O projeto está inserido em uma estratégia mais ampla da Statkraft de combinar diferentes fontes renováveis na Bahia.
Documentos públicos da companhia mostram que o projeto solar foi planejado em associação com ativos eólicos existentes, buscando aproveitar a complementaridade entre a produção das duas fontes.
A lógica é especialmente interessante.
A geração solar se concentra nas horas de maior incidência de radiação ao longo do dia, enquanto a produção eólica pode apresentar perfis diferentes e, em determinadas regiões, ser mais elevada durante a noite.
Ao combinar essas fontes com armazenamento, o empreendimento passa a possuir uma terceira camada de flexibilidade.
A bateria pode receber energia em momentos de maior disponibilidade e devolvê-la posteriormente.
Essa arquitetura aproxima o Brasil de modelos que já vêm sendo utilizados em mercados com alta participação de renováveis.
Baterias aumentam capacidade de gestão da geração solar
A geração fotovoltaica possui uma característica muito clara: sua produção está concentrada durante o período diurno.
À medida que mais usinas solares entram no sistema simultaneamente, aumenta a quantidade de energia disponível nas mesmas horas.
Isso pode reduzir o valor marginal da geração nesses períodos e aumentar a necessidade de flexibilidade para deslocar parte dessa energia.
O armazenamento atua justamente nesse ponto.
Em vez de enviar toda a produção imediatamente para a rede, o BESS pode absorver uma parcela e realizar a descarga posteriormente.
Isso pode ajudar a suavizar o perfil de entrega do empreendimento e aumentar sua capacidade de responder às necessidades do sistema.
No futuro, sistemas colocalizados podem tornar usinas renováveis menos dependentes do perfil instantâneo de produção de suas fontes primárias.
Curtailment aumenta interesse em armazenamento
A autorização ocorre também em um contexto de aumento das restrições sobre geração renovável no Brasil.
O crescimento acelerado de eólicas e solares, especialmente no Nordeste, elevou a necessidade de expansão da transmissão e de recursos capazes de aumentar a flexibilidade operacional.
Quando existe mais geração disponível do que o sistema consegue absorver ou transportar em determinado momento, parte da produção pode ser limitada.
Esse processo, conhecido como curtailment, tornou-se uma das principais preocupações dos geradores renováveis.
Baterias não eliminam todas as causas do problema.
Restrições estruturais de transmissão continuam exigindo novas linhas, subestações e reforços.
Mas o armazenamento pode ajudar em determinadas situações ao deslocar energia de horários mais congestionados para períodos em que exista maior capacidade de absorção.
O dashboard Análise de Curtailment da ePowerBay permite acompanhar justamente essa dinâmica, mostrando como as restrições evoluem e quais regiões e ativos estão mais expostos.

Colocalização pode melhorar aproveitamento dos ativos
Para desenvolvedores, um dos principais atrativos do modelo está na possibilidade de extrair mais valor de uma infraestrutura que já foi construída.
Uma usina solar possui módulos, inversores, subestação, sistemas de proteção, medição e conexão.
Adicionar armazenamento pode permitir que parte dessa estrutura passe a ser utilizada por mais horas do dia.
Isso é especialmente importante porque muitos ativos de conexão são dimensionados para a potência máxima da usina, embora essa potência não seja atingida durante todo o tempo.
O BESS pode aproveitar períodos em que exista capacidade ociosa no ponto de conexão.
Essa lógica tende a tornar a análise de projetos cada vez mais sofisticada.
O melhor local para uma bateria pode não ser simplesmente aquele com maior geração renovável, mas aquele em que a combinação entre geração, conexão, curtailment e perfil de operação produz maior valor.
Aneel cria regras específicas para sistemas colocalizados
Desde a autorização pioneira da Sol de Brotas 7, o ambiente regulatório brasileiro avançou.
Em 2 de junho de 2026, a Aneel regulamentou os procedimentos e requisitos para inclusão de sistemas de armazenamento em centrais geradoras.
A Resolução Normativa nº 1.162/2026 passou a disciplinar a colocalização de
armazenamento em empreendimentos eólicos, solares, termelétricos e outras fontes.
Para solicitar a inclusão do sistema, o empreendedor precisa apresentar informações técnicas sobre capacidade de armazenamento, potência de descarga, eficiência global, perfil de operação e estimativa de injeção anual.
Também são exigidos documentos associados à conexão, incluindo CUST celebrado com o ONS e, quando aplicável, CUSD e parecer de acesso.
O avanço regulatório transforma o caso da Statkraft de uma autorização pioneira em referência para uma modalidade que agora possui procedimento formal.
Primeiro projeto não significa primeiro uso de baterias no Brasil
É importante fazer uma distinção.
A Sol de Brotas 7 é apresentada como o primeiro SAE autorizado pela Aneel na modalidade colocalizada a uma central geradora, mas não é o primeiro projeto de baterias instalado no país.
O Brasil já possui outras iniciativas de armazenamento.
Um dos exemplos mais conhecidos é o sistema da ISA Energia Brasil instalado na
Subestação Registro, em São Paulo, com 30 MW e 60 MWh, desenvolvido para apoiar o atendimento do litoral sul paulista. Também existiram projetos de pesquisa e desenvolvimento combinando baterias e geração solar anteriormente.
A novidade da Sol de Brotas 7 está, portanto, no enquadramento regulatório e na associação formal do sistema de armazenamento a uma usina de geração, e não na utilização inédita da tecnologia de baterias em território brasileiro.
Essa distinção é importante para evitar uma interpretação exagerada sobre o pioneirismo do projeto.
Bahia ganha destaque na nova indústria de BESS
A localização do projeto também é relevante.
A Bahia possui uma das maiores concentrações de geração eólica e solar do país e está inserida em uma região onde o crescimento das renováveis aumentou significativamente a pressão sobre a infraestrutura de transmissão.
Por isso, o estado tende a ser um dos mercados naturais para sistemas de armazenamento.
Baterias instaladas próximas aos grandes polos de geração podem ajudar a criar maior flexibilidade local e melhorar o aproveitamento da infraestrutura.
Além disso, o desenho dos leilões de reserva de capacidade para armazenamento previstos para dezembro prevê valorização locacional em determinados pontos do Nordeste e de Minas Gerais.
Isso reforça a tendência de que parte relevante dos primeiros projetos de grande escala seja desenvolvida justamente nessas regiões.
Mapa e geração centralizada ajudam a entender o projeto
Para analisar projetos colocalizados, é necessário combinar informações que normalmente eram avaliadas separadamente.
Primeiro, é preciso conhecer a usina.
A Pesquisa de Usinas e Projetos de Geração Centralizada da ePowerBay permite acompanhar empreendimentos solares e eólicos, seus agentes e características.
Depois, é necessário compreender onde o ativo está localizado e como se relaciona com outros projetos.

Por fim, quando o objetivo passa a ser avaliar armazenamento, o Mapa de TUSTg/c e Margem (BESS) acrescenta a dimensão específica de conexão e viabilidade locacional.
Essa combinação é particularmente adequada para uma nova geração de projetos híbridos, nos quais geração e armazenamento deixam de ser analisados como ativos completamente separados.
Leilões de dezembro devem acelerar armazenamento
O projeto pioneiro da Statkraft antecede uma expansão muito maior do mercado brasileiro de baterias.
Os primeiros leilões de reserva de capacidade dedicados ao armazenamento estão previstos para dezembro de 2026.
O cadastramento demonstrou dimensão expressiva do interesse dos investidores, com milhares de projetos e centenas de gigawatts apresentados para participação.
Esse volume mostra que o armazenamento está deixando rapidamente de ser um nicho experimental.
A tendência é de entrada de grandes grupos de geração, transmissoras, empresas integradas de energia, fabricantes e investidores em infraestrutura.
O caso Sol de Brotas 7 possui escala pequena quando comparado aos projetos que poderão disputar os leilões, mas funciona como um precedente importante para outra vertente do mercado: baterias incorporadas diretamente a usinas existentes ou em desenvolvimento.
Na ePowerBay, o dashboard Leilão de Reserva de Capacidade — LRCAP 2026 permite acompanhar essa próxima etapa de expansão do setor.
Standalone e colocalizado devem coexistir
O desenvolvimento do armazenamento brasileiro não deverá seguir apenas um modelo.
Projetos standalone e colocalizados possuem aplicações diferentes.
Um sistema independente pode ser instalado em um ponto estratégico da rede mesmo sem existir uma usina renovável no local.
Já o colocalizado pode aproveitar infraestrutura e geração existentes.
A decisão depende das necessidades do sistema, condições de conexão, custos e modelo de receitas.
Em determinadas regiões, um BESS independente próximo a uma subestação congestionada pode produzir maior valor.
Em outras, associar armazenamento a um complexo solar ou eólico pode ser mais eficiente.
A expansão do setor provavelmente será formada pela combinação dessas arquiteturas.
Perspectivas para o setor
A autorização do sistema associado à UFV Sol de Brotas 7 representa um marco importante porque cria uma referência concreta para a integração entre geração e armazenamento no Brasil.
Com 1,25 MW de potência e pouco mais de 5 MWh de capacidade, o projeto possui dimensão relativamente pequena, mas sua importância está na estrutura adotada.
O armazenamento passa a ser incorporado diretamente ao empreendimento gerador, compartilhando infraestrutura de conexão e permitindo maior flexibilidade sobre quando a energia será entregue ao sistema.
Desde então, a Aneel avançou ainda mais e criou procedimentos específicos para a colocalização, dando aos desenvolvedores maior clareza sobre os requisitos necessários para novos projetos.
Para acompanhar essa transformação na ePowerBay, as ferramentas mais aderentes são o Mapa de TUSTg/c e Margem (BESS), a Pesquisa de Usinas e Projetos de Geração Centralizada, a Análise Geoespacial da Geração Centralizada, a Fila de Acesso à Rede (ONS) e, para estudar regiões sujeitas a restrições, a Análise de Curtailment.
O primeiro BESS colocalizado autorizado é pequeno diante do potencial brasileiro de armazenamento, mas representa uma mudança importante na forma de desenvolver ativos renováveis: geração, conexão e bateria começam a fazer parte de uma mesma estratégia de investimento.
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