Desempenho e curtailment em renováveis: o que os dados de maio e junho de 2026 revelam sobre o setor
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A expansão das fontes eólica e solar no Brasil vem acompanhada de um desafio cada vez mais relevante para geradores, investidores, fornecedores e demais agentes do setor: compreender a diferença entre a capacidade de produção dos empreendimentos e a energia que efetivamente consegue ser entregue ao sistema.
Os dados mais recentes analisados pela ePowerBay mostram dois movimentos simultâneos. De um lado, parques eólicos e solares alcançam fatores de capacidade elevados e demonstram bom desempenho operacional. De outro, o curtailment — também chamado de constrained-off ou corte de geração — continua retirando volumes significativos de energia renovável do sistema.
Ao combinar o Ranking Operacional Eólico e Solar de maio de 2026 com o Ranking de Curtailment de junho de 2026, é possível obter uma visão mais completa do mercado: não basta avaliar quanto uma usina gera. É necessário entender também quanto ela poderia ter gerado, quais restrições limitaram sua produção e como sua localização e seu ponto de conexão influenciam os resultados.
O que é fator de capacidade e por que esse indicador importa?
O fator de capacidade mostra a relação entre a energia efetivamente gerada por uma usina e a energia que ela produziria caso operasse em sua potência máxima durante todas as horas do período analisado.
De forma simplificada:
Fator de capacidade = geração de energia ÷ potência instalada e horas do período
Esse indicador ajuda a comparar o desempenho de empreendimentos de diferentes tamanhos. Quanto maior o fator de capacidade, maior foi o aproveitamento da potência instalada naquele mês.
Entretanto, o fator de capacidade não deve ser analisado isoladamente. Condições climáticas, disponibilidade dos equipamentos, perdas elétricas, entrada em operação de novas unidades e restrições impostas pelo sistema podem afetar o resultado.
O Ranking Operacional da ePowerBay reúne, além do fator de capacidade mensal, informações sobre proprietários, fabricantes de turbinas, módulos, inversores e trackers, tipo de despacho e ocorrência de constrained-off. O estudo utiliza dados operacionais divulgados pela CCEE e informações do ONS como fontes primárias.
Desempenho solar: Sobral 1 lidera o ranking geral
Entre os parques solares analisados em maio de 2026, Sobral 1 apresentou o maior fator de capacidade do ranking geral, com 29,97%.

O empreendimento pertence à Global Power Generation e utiliza:
módulos Canadian;
inversores Power Electronics;
trackers PVH Hardware.
Sobral 1 é classificado como empreendimento do tipo de despacho III e não apresentou curtailment no período analisado. Entre os 20 primeiros colocados do ranking solar geral, cinco estavam conectados à Rede Básica e, portanto, sujeitos às perdas até o centro de gravidade e à possibilidade de cortes determinados pelo ONS.
O resultado evidencia uma questão importante: a comparação direta entre usinas sujeitas e não sujeitas ao despacho centralizado pode não refletir integralmente as diferenças operacionais entre os empreendimentos.
Ranking solar sem usinas do tipo III
Para tornar a análise mais comparável, o estudo também apresenta um ranking que desconsidera as usinas do tipo III, ou seja, empreendimentos que não estão sujeitos aos mesmos cortes realizados pelo ONS.
Nesse recorte, o primeiro lugar ficou com Arinos 18, que registrou fator de capacidade de 26,93%.
A usina pertence à Newave Energia e possui:
módulos Trina;
inversores Huawei;
trackers Nextpower;
despacho tipo II-C;
ocorrência de curtailment.
Essa comparação mostra que um fator de capacidade menor não significa necessariamente desempenho técnico inferior. Uma usina pode apresentar boa disponibilidade e condições favoráveis de recurso solar, mas ter sua produção limitada por restrições externas ao empreendimento.
Desempenho eólico: V. S. Abraão alcança fator de capacidade de 69,5%
No ranking eólico de maio, o parque V. S. Abraão ocupou a primeira posição, com fator de capacidade de 69,5%.

O empreendimento pertence à Enel, utiliza turbinas Vestas, está enquadrado no tipo de despacho II-C e apresentou constrained-off.
Entre os 20 primeiros parques eólicos do ranking, 19 estavam conectados à Rede Básica. Esses empreendimentos estão sujeitos a perdas até o centro de gravidade, estimadas no estudo em cerca de 2,5%, e também podem sofrer cortes determinados pelo ONS.
O resultado é expressivo, mas também reforça a necessidade de cautela. Mesmo os ativos com melhor desempenho podem estar expostos a restrições operacionais que reduzem sua geração efetiva e afetam receitas.
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Curtailment acumulado chega a 58,5 milhões de MWh
Considerando o período analisado pelo estudo, as perdas acumuladas de geração eólica e solar alcançaram aproximadamente 58,5 milhões de MWh.

As razões energéticas foram responsáveis pela maior parte desse volume:
51,7% das restrições;
mais de 30,2 milhões de MWh de geração frustrada.
O percentual acumulado de corte foi calculado em aproximadamente 10,1%.
As razões externas representaram cerca de 7,64 milhões de MWh, equivalentes a 13,1% do total acumulado. Segundo o estudo, essa categoria está associada aos eventos passíveis de ressarcimento via Encargos de Serviços do Sistema, conforme as regras aplicáveis.
Os números demonstram que o curtailment deixou de ser um evento pontual e passou a ocupar uma posição central nas análises de desempenho e risco dos projetos renováveis.
Junho apresenta redução mensal, mas cortes permanecem elevados
Em junho de 2026, a geração frustrada foi de aproximadamente 2,5 milhões de MWh.
O volume representa uma redução de 13,2% em relação a maio, quando os cortes alcançaram cerca de 2,92 milhões de MWh.
Apesar da diminuição mensal, as perdas continuaram elevadas. Em junho, o corte correspondeu a aproximadamente 17,1% da geração potencial considerada no estudo.
A composição das restrições do mês foi:
65,5% por razões energéticas;
17,7% por razões externas;
16,8% por confiabilidade elétrica.
A predominância das razões energéticas indica que parte significativa do problema está ligada à capacidade do sistema de absorver e transportar a energia disponível, e não apenas a falhas ou indisponibilidades pontuais da infraestrutura.
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O que a combinação dos dois rankings revela?
A principal conclusão é que desempenho operacional e capacidade de escoamento precisam ser analisados em conjunto.
Uma usina pode apresentar excelentes condições de vento ou irradiação, equipamentos eficientes e elevada disponibilidade. Ainda assim, seu fator de capacidade pode ser reduzido por cortes externos à operação do ativo.
Da mesma forma, comparar usinas de tipos de despacho diferentes pode levar a interpretações incompletas. Empreendimentos do tipo III, que não estão sujeitos aos mesmos comandos de corte do ONS, podem apresentar vantagem no ranking mensal em relação a usinas conectadas à Rede Básica.
Os casos de Arinos 18 e V. S. Abraão ilustram essa realidade. Ambos aparecem em posições de destaque no ranking operacional, mas estão inseridos em ambientes sujeitos a constrained-off.
Portanto, uma análise consistente deve combinar:
fator de capacidade;
disponibilidade operacional;
geração potencial e verificada;
tipo de despacho;
causa das restrições;
histórico do conjunto;
subestação de conexão;
comportamento de projetos próximos;
capacidade e expansão da rede;
características dos equipamentos.
Como esses dados apoiam decisões estratégicas?
Para investidores, os dados permitem avaliar melhor os riscos de aquisição, desenvolvimento ou financiamento de ativos.
Para proprietários e operadores, apoiam a identificação de perdas recorrentes, a comparação entre usinas e a análise das causas que afetam a geração.
Para fabricantes e prestadores de serviço, ajudam a separar problemas relacionados a equipamentos daqueles provocados por limitações externas ao empreendimento.
Para consultorias e assessorias jurídicas, fornecem uma base histórica para análises regulatórias, contratuais e de recuperação de receitas.
Para desenvolvedores, a visualização conjunta de projetos, subestações, linhas de transmissão e histórico de curtailment ajuda a selecionar regiões com melhores condições de conexão e menor exposição a restrições.
Inteligência de mercado para compreender o desempenho real dos ativos
A Plataforma ePowerBay reúne ferramentas específicas para análise de desempenho operacional e constrained-off.

Entre os recursos disponíveis estão:
classificação dos cortes por razões energéticas, externas e de confiabilidade;
ranking de usinas e conjuntos mais afetados;
histórico de fator de capacidade;
comparação entre empreendimentos;
dados de proprietários e fabricantes de equipamentos;
informações sobre subestações e capacidade de conexão;
mapas com infraestrutura elétrica, projetos e restrições;
exportação de dados em formatos como Excel, KMZ, shapefile e GeoJSON.
A plataforma também permite analisar projetos por nome, proprietário, fonte, status, cluster, capacidade, localização, subestação conectada e desempenho operacional, reunindo informações técnicas e comerciais em um único ambiente.
Conclusão
Os resultados de maio e junho de 2026 mostram que as fontes eólica e solar continuam apresentando elevado potencial de produção, mas enfrentam um cenário desafiador para o escoamento da energia.
O fator de capacidade permanece essencial para medir a eficiência operacional, porém já não é suficiente para explicar sozinho o desempenho econômico de um empreendimento. O curtailment precisa fazer parte das análises de operação, investimento, desenvolvimento e gestão de portfólio.
Com perdas acumuladas de 58,5 milhões de MWh e forte participação das restrições energéticas, o mercado precisa acompanhar não apenas a expansão da capacidade instalada, mas também a evolução da infraestrutura necessária para integrar essa geração ao sistema.
Nesse contexto, transformar dados dispersos em análises comparáveis é decisivo para reduzir riscos, identificar oportunidades e tomar decisões mais fundamentadas.
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